Movido por algo que não o deixa em paz

Um olhar memorialista

O artista visual Elias Santos não se cansa de ferir a sensibilidade coletiva para marcar a memória com os relevos sugeridos pelas angústias contemporâneas. Na conversa reproduzida abaixo, ele revela as motivações do projeto Bom Dia Gonzagão, contemplado por edital da Funarte, e reverencia uma das pedras fundamentais da cultura nordestina.

As gravuras inspiradas em Gonzagão serão reunidas em um catálogo a ser lançado no dia 13 de dezembro, data em que o Rei do Baião completaria 100 anos de vida, na cidade que o viu nascer. Elias pretende saudar o amanhecer deste dia, quando Exu promoverá uma programação cultural alusiva ao Centenário, com uma intervenção artística que celebra a vida e o legado de Gonzagão.

Bom Dia Gonzagão – É curioso observar o apreço do artista visual Elias Santos pela xilogravura. Como um profissional que sempre se dedicou de maneira radical às possibilidades da arte contemporânea se aproximou de uma técnica aparentemente tão rudimentar? Como foi que a gravura entrou na vida de Elias Santos?

Elias Santos – Quando descobri que tudo é possível desde quando o ato de desenhar esteja presente. A minha prática no campo da gravura, ou no universo da arte contemporânea não possui fronteiras ou seguimentos padronizados, muito menos modismos. Simplesmente sigo em frente movido por algo que não me deixa em paz.

BDG – Em outras oportunidades, Elias aproximou a xilo do universo urbano e a inseriu no cotidiano de nossos dias. Parece que agora a intenção do artista foi percorrer o caminho de volta, retornar a um nordeste árido. Como se deu a influência do ambiente nesse processo?

Elias – Curto bastante o processo. Seja do fazer ou do pensar. Até mesmo de destruir o que estou fazendo e entrar em uma de pura experimentação. Tudo é válido pois sei o que estou fazendo e o que realmente quero alcançar. E a gravura na minha poética é uma via de mão dupla, posso transitar em todos os campos. Um não anula o outro, entende?

Meu olhar para a cultura nordestina é um olhar memorialista. Curto isso! Sou fã de Suassuna, patativa do Assaré, Virgulino e Gonzagão. Gravei essas coisas todas porque elas vieram até mim naturalmente. E a figura humana sempre me circunda, misturo com meus gráficos e fica arretado de bom!

BDG – O imaginário nordestino deve muito ao cancioneiro do Velho Lua. As canções do compositor auxiliaram na imersão desse universo? Foi possível reconhecer Gonzagão nas ruas de Exu?

Elias – Gonzaga é mágico! Está por toda parte, em cada canto, em cada sorriso do velho ao adulto. Não dá para circular em Exu e não se emocionar com sua arte.Vai continuar iluminando a cultura de todo nordeste como uma fogueira que nunca se apaga. E minha gravura foi contaminada por essa energia. Entro num processo de imersão, investigando e curtindo minha personagem para criar as gravuras. Nesse caso a ida a cidade natal de Gonzagão foi fundamental. As músicas para animar o corte também.

BDG – O resgate de personagens e narrativas também é papel do artista visual? Porque Gonzagão, a essa altura do campeonato?

Elias – Sim. Curto a coisa da memória. De mantermos vivos essas figuras fantásticas, que não podemos deixar esquecê-las. Acho que essas personagens me perseguem (risos), pois muito do que faço não é premeditado. Surge, me envolvo e faço.

Gonzagão foi assim, surgiu de um convite do Bené Fonteles para fazer uma gravura do mestre Lua, para o seu livro O rei e o Baião. Daí me envolvi e hoje tenho uma produção de mais de 40 gravuras só sobre ele. E o projeto da Silvane Azevedo me oportunizou a dar um gás, a produzir algo inédito para mim, a construir essa homenagem merecida para Gonzaga, para a cultura nordestina.

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