Elias Santos eterniza Gonzagão

Elias

As feições e os versos de Luiz Gonzaga entalhados na memória coletiva

No último dia 13, data em que Luiz Gonzaga completaria cem anos de vida, o artista visual Elias Santos fez como milhares de pessoas e desembarcou em Exu, cidade natal do Rei do Baião, para render homenagens a um dos maiores valores que já brotou no solo árido do nordeste. Na ocasião, Elias distribuiu centenas de gravuras dedicadas ao Velho Lua. Ele conta que a experiência foi muito satisfatória e convida para o lançamento do catálogo Bom Dia Gonzagão, 28 de dezembro, no Palácio Museu Olímpio Campos.

“Meu retorno a Exu estabeleceu um diálogo definitivo entre o universo musical de Gonzaga e sua imagem, gravando para a história uma homenagem que, além da madeira, se perpetuará no catálogo lançado pelo projeto. O centenário de Gonzagão transformou o cotidiano de Exu. A circulação de pessoas, de artistas, de ações envolvendo o nome do mestre Lua foi muito comovente. A cidade só respirava e cantava Gonzagão”.

Contemplado pela Funarte, através do Prêmio Centenário Luiz Gonzaga 2012, o projeto Bom Dia Gonzagão, proposto pela produtora cultural Silvane Azevedo, consistiu na confecção de uma série de gravuras dedicadas ao autor de autênticos hinos nordestinos, a exemplo de Asa Branca e Assum Preto. Para tanto, Elias visitou a cidade natal de Gonzagão no início de setembro com o propósito de procurar os vestígios de sua obra na paisagem árida de Exu.

Segundo Elias, é preciso transbordar o episódico e entalhar as feições e os versos de Luiz Gonzaga na memória coletiva. “Essas homenagens são mais do que merecidas, porém passageiras. Por isso me preocupei em deixar um registro e aí está o catálogo. Gonzaga é grande, demasiadamente grande, e ainda existem muitas histórias sobre sua genialidade musical que precisam ser contadas, desenhadas, gravadas e lavadas para todo o Brasil, para todo o mundo”.

Na ocasião, ocorrerá apresentação do auto de natal “Menino Deus” e do grupo Peneirou Xerém.

Elias Santos lança catálogo Bom Dia Gonzagão: 

Local: Palácio Museu Olímpio Campos

Data: 28 de dezembro

Hora: 16 horas

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Movido por algo que não o deixa em paz

Um olhar memorialista

O artista visual Elias Santos não se cansa de ferir a sensibilidade coletiva para marcar a memória com os relevos sugeridos pelas angústias contemporâneas. Na conversa reproduzida abaixo, ele revela as motivações do projeto Bom Dia Gonzagão, contemplado por edital da Funarte, e reverencia uma das pedras fundamentais da cultura nordestina.

As gravuras inspiradas em Gonzagão serão reunidas em um catálogo a ser lançado no dia 13 de dezembro, data em que o Rei do Baião completaria 100 anos de vida, na cidade que o viu nascer. Elias pretende saudar o amanhecer deste dia, quando Exu promoverá uma programação cultural alusiva ao Centenário, com uma intervenção artística que celebra a vida e o legado de Gonzagão.

Bom Dia Gonzagão – É curioso observar o apreço do artista visual Elias Santos pela xilogravura. Como um profissional que sempre se dedicou de maneira radical às possibilidades da arte contemporânea se aproximou de uma técnica aparentemente tão rudimentar? Como foi que a gravura entrou na vida de Elias Santos?

Elias Santos – Quando descobri que tudo é possível desde quando o ato de desenhar esteja presente. A minha prática no campo da gravura, ou no universo da arte contemporânea não possui fronteiras ou seguimentos padronizados, muito menos modismos. Simplesmente sigo em frente movido por algo que não me deixa em paz.

BDG – Em outras oportunidades, Elias aproximou a xilo do universo urbano e a inseriu no cotidiano de nossos dias. Parece que agora a intenção do artista foi percorrer o caminho de volta, retornar a um nordeste árido. Como se deu a influência do ambiente nesse processo?

Elias – Curto bastante o processo. Seja do fazer ou do pensar. Até mesmo de destruir o que estou fazendo e entrar em uma de pura experimentação. Tudo é válido pois sei o que estou fazendo e o que realmente quero alcançar. E a gravura na minha poética é uma via de mão dupla, posso transitar em todos os campos. Um não anula o outro, entende?

Meu olhar para a cultura nordestina é um olhar memorialista. Curto isso! Sou fã de Suassuna, patativa do Assaré, Virgulino e Gonzagão. Gravei essas coisas todas porque elas vieram até mim naturalmente. E a figura humana sempre me circunda, misturo com meus gráficos e fica arretado de bom!

BDG – O imaginário nordestino deve muito ao cancioneiro do Velho Lua. As canções do compositor auxiliaram na imersão desse universo? Foi possível reconhecer Gonzagão nas ruas de Exu?

Elias – Gonzaga é mágico! Está por toda parte, em cada canto, em cada sorriso do velho ao adulto. Não dá para circular em Exu e não se emocionar com sua arte.Vai continuar iluminando a cultura de todo nordeste como uma fogueira que nunca se apaga. E minha gravura foi contaminada por essa energia. Entro num processo de imersão, investigando e curtindo minha personagem para criar as gravuras. Nesse caso a ida a cidade natal de Gonzagão foi fundamental. As músicas para animar o corte também.

BDG – O resgate de personagens e narrativas também é papel do artista visual? Porque Gonzagão, a essa altura do campeonato?

Elias – Sim. Curto a coisa da memória. De mantermos vivos essas figuras fantásticas, que não podemos deixar esquecê-las. Acho que essas personagens me perseguem (risos), pois muito do que faço não é premeditado. Surge, me envolvo e faço.

Gonzagão foi assim, surgiu de um convite do Bené Fonteles para fazer uma gravura do mestre Lua, para o seu livro O rei e o Baião. Daí me envolvi e hoje tenho uma produção de mais de 40 gravuras só sobre ele. E o projeto da Silvane Azevedo me oportunizou a dar um gás, a produzir algo inédito para mim, a construir essa homenagem merecida para Gonzaga, para a cultura nordestina.

Elias Santos saúda centenário de Gonzagão

O imaginário de um povo entalhado na madeira*

A cultura nordestina entalhada na madeira. A homenagem proposta pelo projeto Bom Dia Gonzagão extrapola o personagem do Velho Lua e, a exemplo de sua obra, se aproxima do imaginário de um povo que deve a própria narrativa a um dos maiores mestres da Música Popular Brasileira. De acordo com o gravador Elias Santos, não há como se deter sobre as feições do sanfoneiro sem perceber os contornos dos seus.

“Gonzaga é mágico! Está por toda parte, em cada canto, no sorriso de velhos e moços. Não dá para circular em Exu e não se emocionar com sua arte. Vai continuar iluminando a cultura do nordeste como uma fogueira que nunca se apaga”.

Contemplado pela Funarte, através do Prêmio Centenário Luiz Gonzaga 2012, o projeto proposto pela produtora cultural Silvane Azevedo consiste numa série de gravuras dedicadas ao autor de autênticos hinos nordestinos, a exemplo de Asa Branca e Assum Preto. Para tanto, Elias visitou a cidade natal de Gonzagão no início de setembro com o propósito de procurar os vestígios de sua obra na paisagem árida de Exu. O resultado não poderia ser outro.

“Minha gravura foi contaminada por essa energia. Entrei num processo de imersão, investigando e curtindo minha personagem para criar as gravuras. Nesse caso, a viagem à cidade natal de Gonzagão foi fundamental. As músicas para animar o corte também”.

As gravuras inspiradas em Gonzagão serão reunidas em um catálogo a ser lançado no dia 13 de dezembro, data em que o Rei do Baião completaria 100 anos de vida, na cidade que o viu nascer. Elias pretende saudar o amanhecer deste dia, quando Exu promoverá uma programação cultural alusiva ao Centenário, com uma intervenção artística que celebra a vida e o legado de Gonzagão.

*Foto: Renata Voss